Uma noite no meio


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Ainda bem que sempre tem uma noite no meio dos dias. Começando assim, até parece um post de autoajuda; não é minha intenção que seja, mas, no fim das contas, quem decide é o leitor, porque esse texto deixa de ser só meu a partir do momento em que você toma conhecimento dele; pode acabar sendo seu, se ele te consolar ou te incomodar tanto que você, apesar de tentar, não o tirará da cabeça tão cedo.

Mas, como eu dizia, ainda bem que sempre tem uma noite no meio dos dias. De outra forma, a vida, especialmente a comunitária, seria inviável. Seria impossível engolir aquelas palavras que são demais e que, por um triz, não são lançadas ao alvo de outras mentes, se bem que mereciam ser. Seria difícil voltar a encarar gente que, com muito medo da própria verdade, desvia a rota, muda o assunto e não diz o que precisa ser dito, zombando da sua inteligência e confundindo sua sensibilidade com fraqueza. A fraqueza, na verdade, reside em não suportar, gritar e brigar; sensibilidade é dar às pessoas a certeza de que sua ilusão é eficaz, se é isso que querem. Porque explicar o contrário dá trabalho, é desgastante e não há nada mais insuportável do que falar e sentir que seu medíocre interlocutor só quer seguir em frente.

Ainda bem que sempre tem uma noite no meio dos dias. De outra forma, seria impossível carregar o tédio que, vez por outra, acomete a todos nós, não importa o esforço que façamos para preencher nossas horas mortas de rotina e, assim, fazê-las reviver. Porque, apesar de tanto ativismo, ninguém é capaz de dar vida à própria existência.

Não há vida verdadeira se olhos, mãos e lábios não forem modificados. Sinto muito, mas uma existência cheia de reservas e meias verdades é a casa construída na areia, abrigo por pouco tempo.

A integridade é difícil. Não entenda como integridade a obediência à moral e aos bons costumes, como definiu um amigo equivocado, certa vez, mas a qualidade de ser uma pessoa só em todos os momentos. Quem é íntegro, ou seja, inteiro, paga um preço bem alto; mas sabe que, se alguém escolhe andar ao seu lado, o faz ciente dos dois lados da moeda. E que libertador é poder ser quem se é ao lado de quem se gosta. Só caminha assim quem já sabe que a rejeição virá, de um lado ou de outro, mas sabe também que a apreciação também virá.

Ainda bem que sempre tem uma noite no meio dos dias, pra gente respirar, dar e receber segundas chances.

Convicção


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Meu maior medo de um dia ser escritor é o de estar em uma dessas mesas-redondas, e os caras começarem a debater esses livros. Ah, isso me arrepia profundamente!

Essas foram as palavras que um amigo me escreveu enquanto conversávamos, por e-mail, a respeito de alguns clássicos da literatura que não lemos e não temos a menor vontade de ler. Em comum, alimentamos certa aversão à obra de alguns autores tidos como "fundamentais" pela maioria dos que se dizem intelectuais (Borges e James Joyce constam na nossa lista negra, só para dar alguns exemplos). Em suma, preferimos eleger nossos próprios cânones e somos perfeitamente felizes assim.

Fiquei pensando nessa conversa e percebi que ela veio ao encontro de algo sobre o qual eu quero falar há muito tempo: a liberdade. Há quem diga que é assunto batido de tão discutido, mas quem dera todo mundo soubesse viver livre.

Acho que me assustaria se, durante o dia, contabilizasse todas as vezes em que identifico, pela observação de mim e dos outros, uma atitude (ou a falta dela) adotada com o intuito de ganhar aprovação. Nada de errado em ser aprovado pelas pessoas, desde que nesse jogo a gente não perca a identidade e, depois de se metamorfosear tanto, não se reconheça mais no silêncio do próprio quarto, tendo só os berros da consciência pra ouvir.

Não quero ser aceita por gente que me aplaude, mas não sabe quem eu sou. Não quero passar os dias domesticando meus passos e perdendo o prazer de caminhar. Não quero seguir o fluxo só porque, do contrário, ele pode me esmagar. Prefiro estar sozinha com o que me dá paz, ou na companhia daqueles que querem me acompanhar apenas por estima e afinidade, ainda que sejam poucos (sim, porque certamente a naturalidade sempre trará alguém para perto de mim).

Quero trocar o medo da exposição pela alegria da transparência, e cada dia é um exercício para isso; às vezes é frustrante, às vezes é recompensador. Mas melhora muito quando me lembro de que, de uma forma ou de outra, sempre vai haver alguém que não vai gostar. Ou seja, não há unanimidade.

Se eu preciso ser transformada pra continuar vivendo (e as mudanças sempre virão), que seja para o meu aperfeiçoamento, e não para atender ao capricho de alguém ou de algum grupo, mesmo que eu deseje muito fazer parte dele. E bom é viver sem amarras e desfrutar de tudo: dos livros que lemos e do tempo que temos, sempre com sinceridade.

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